Vingança, filha da ignorância
Por Carlos Fett
É muito comum escutarmos que tal pessoa tem o
gênio forte, porque não leva "desaforo para casa". Ou
então, que se nosso "orgulho" for ferido, devemos
devolver o insulto com a mesma intensidade. Não agir desta forma
é visto como uma covardia, uma fraqueza, falta de personalidade.
Tomou-se como "ponto de honra" a necessidade de
retribuir-se o mal com o mal. O resultado é que a cada dia
aumenta a violência em todos os setores.
Não percebemos, mas contribuímos diariamente para que isso se
propague.
Se analisarmos nosso cotidiano, veremos que tanto em nossa casa,
no trabalho e até no lazer nos melindramos por qualquer
discordância de ponto de vista. Também não deixamos que a
opinião que emitimos seja contrariada; que nossos desejos, às
vezes absurdos e egoístas, sejam ignorados.
Ai daquele que se opuser às nossas vontades! Mesmo que seja só
em pensamento, passamos a desejar que aquela pessoa passe por
poucas e boas. Sentimos uma estranha satisfação quando alguém
que não gostamos ou nos desentendemos sofre dificuldade. Só
isso já demonstra o que realmente temos dentro de nós:
egoísmo.
Há casos, então, em que a vingança se torna patente. É o que
acontece quando tomamos conhecimento de crimes hediondos. O
primeiro sentimento é de desejarmos que o indivíduo sofra na
própria carne a dor que fez ou outros passarem. Então, passamos
a ser cúmplices da violência, incentivando-a inconscientemente.
Com isso, no quê nos diferenciamos dos animais?
A vontade de ver a justiça sendo feita muitas vezes nos torna
injustos. Isso porque a visão da realidade que nos cerca pode
ser distorcida por uma série de fatos, que vão desde o
desconhecimento dos motivos do que está ocorrendo até a
manipulação de informações.
Desenconrajar a vingança não significa ser conivente com o mal.
Pelo contrário, mostra a necessidade de combatermos a maldade
com razão e não com o ódio e a emoção que cegam e destroem.
Jesus disse que deveríamos ser prudentes como a serpente e
mansos como as pombas. Neste ensinamento superior, o Mestre
mostra sua sabedoria, pois se formos prudentes agiremos com
cautela, previdência, em todos os nossos atos; com a mansidão,
teremos respeito e amor, fazendo aos outros o que gostaríamos
que nos fizessem.
Leis existem e devem ser cumpridas. Sejam as leis humanas, das
quais todos temos conhecimento; sejam as divinas, contidas no
Evangelho de Jesus. Desrespeitá-las trará consequências, na
medida e intensidade do descumprimento.
Por este motivo, não devemos buscar a vingança com as próprias
mãos, ou nos satisfazermos com a dor de outra pessoa, por pior
que esta pareça ser. Nem mesmo concordar que os crimes hediondos
sejam pagos com a morte. No nosso planeta há seres de diferentes
escalas de desenvolvimento moral e intelectual. Isso faz com que
presenciemos atos lastimáveis, e não compreendamos como pode
haver indivíduos que se comprazem em fazer o mal pelo mal. A
impunidade às vezes os preserva das leis humanas, e isso pode
nos revoltar.
Cuidado! Não nos esqueçamos das Escrituras, onde é claro que a
"Vingança a Deus pertence". Não que Deus, o Pai
criador, vá se vingar. Mas Ele criou as leis espirituais, dentre
as quais está a de "Causa e Efeito", na qual tudo o
que fizermos ao próximo, de bom ou ruim, será retornado a nós
mesmos. É nossa própria consciência que nos cobrará, na vida
material ou na espiritual, a verdadeira vida de que sempre falou
Jesus.
Portanto, não há malefício que não seja cobrado; não há
injustiça que não seja reparada. Tudo está sob os olhos do
Senhor, mesmo que escape dos olhos dos homens. Disto não podemos
duvidar.
Não deixar o mal se proliferar deve ser uma constante na vida do
cristão. Mas a cautela deve acompanhar essa sede de justiça,
para que não passemos de vítimas a carrascos.
"Em verdade vos digo: amai a vossos inimigos, bendizei os
que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que
vos maltratam e vos perseguem...Pois, se amardes somente os que
vos amam, se saudardes somente vossos irmãos, que fazeis de
mais? ", afirma Jesus, lembrando que também os
malfeitores fazem isso. No quê estaríamos nos diferenciando?
Teríamos algum mérito por só fazer o bem àquele que nos faz o
bem? Jesus diz que não e a razão o acompanha.
Não há doce sabor na vingança, mas sim o amargor da
perturbação e falta de paz, que nos acompanhará até à vida
espiritual, levando a desequilíbrios e dores profundas.
Sejamos conscientes e não deixemos que a onda de violência tome
conta de nosso ser. Precisamos começar a mudar a maneira de
encarar a existência, pois como está em breve ficará difícil
a convivência entre as pessoas. Há mais coragem em suportar um
insulto do que em se vingar, disse Allan Kardec, codificador da
Doutrina Espírita. E esse deve ser o objetivo de todo homem de
bem, construindo um futuro novo no milênio que chega e nos
aproximando da paz de Deus.